25.8.10

13 DE AGOSTO DE 1893 - OS JORNALISTAS AMADORES DE OUTROS TEMPOS...

Praça de touros

Em um dos dias d'esta semana, a empreza da praça de touros do Campo Pequeno offereceu aos representantes da imprensa a corrida de um garraio matinal e reservado.
Já sabiamos que todo o jornalista tem obrigação de, nas questões sociaes mais complexas e difficeis, prendre le taureau par les cornes - no sentido figurado da phrase. Mas d'ahi a arrostar um touro de carne e osso, ainda quando tanto a carne como o osso sejam tenros, vae uma grande distancia. Pois essa distancia venceram-n'a ha alguns dias redactores de diversos jornaes de Lisboa. Apenas appareceu na praça o novilho, os jornalistas pondo de parte a penna e empunhando as bandarilhas, saltaram a farpear o animal, com a destreza, a galhardia e o denodo de verdadeiros capinhas! Houve pégas de cara, pégas de cernelha e pégas de rabo!
O garraio corria e pulava, perseguido pelos ares de ferros que o ameaçavam de todos os lados! Foi um verdadeiro sucesso tauromachico! E ao cabo de alguns minutos, o pobre animal escorria mais sangue, do que o que corre dos adversarios politicos aggredidos pelos mesmos jornalistas. Provou-se ainda uma vez que mais magôa e mais fere um bom par de farpas, do que um bom par de tropos!
A imprensa toda rejubilou com o exito dos collegas, e lançou o nome dos vencedores á posteridade!

In A SEMANA DE LISBOA - SUPPLEMENTO DO JORNAL DO COMMERCIO, Lisboa.

20 DE AGOSTO DE 1893 - "A PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DE TOUROS DO CAMPO PEQUENO"

Praça de touros
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É hoje que se realisa a primeira corrida nocturna na praça de touros do Campo Pequeno.
A experiencia da luz electrica, que de allumiar a praça, foi feita na sexta feira, em espectaculo gratuito, offerecendo então a empreza um garraio para ser corrido por amadores.
O espectaculo attrahiu enorme concorrencia, a que não foi de certo indifferente a franquia da entrada. A illuminação produziu bom effeito que ainda pode ser melhorado com algumas lampadas que abatam a penumbra em que ficam alguns camarotes.
Viam se muitas senhoras na plateia, e cheias as bancadas.
O novilho que veio á praça era de boa raça, ligeiro, esperto, e tão vivo e desembaraçado que desenove vezes saltou a trincheira. Parecia que tinha dentro de si a alma d'um palhaço !
Saltaram á praça diversos amadores, que farpearam o novilho, e um que lhe fez uma pega de cara.
Emfim, foi um espectaculo divertido e alegre, e que serviu de annuncio á corrida que hoje se ha-de realisar, e que attrahirá grande concorrencia. Tudo depende da disposição do curro, que talvez preferisse á hora em que se dá a corrida, estar tranquillamento a dormir, no meio da charneca !
SPECTATOR

In A SEMANA DE LISBOA - SUPPLEMENTO DO JORNAL DO COMMERCIO, Lisboa.

22 DE OUTUBRO DE 1893 - JOSÉ BENTO REGRESSA DE PARIS

PRAÇA DE TOUROS

É hoje que se realisa na Praça do Campo Pequeno a tourada em que toma parte o arrojado cavalleiro José Bento de Araujo, que ha muito não temos podido admirar por estar contractado em Paris.
O curro pertence ao afamado creador sr. visconde da Varzea.
É de esperar grande concorrencia. E não faltarão ovações a José Bento d'Araujo e aos demais artistas.
SPECTATOR

In A SEMANA DE LISBOA - SUPPLEMENTO DO JORNAL DO COMMERCIO, Lisboa.

26 DE JULHO DE 1911 - O TOUREIRO PRETO NA PRAÇA DE ALGÉS

TOURADAS

Praça d'Algés
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A corrida de domingo, em Algés, está despertando o maior interesse ao publico, e nas classes a que é dedicada - padeiros, sapateiros e alfaiates - pois os numerosos amadores que tomam parte n'ella garantem uma tarde de sensações. Ao mesmo tempo, não só os numeros de arte que se annunciam, como também os trabalhos ultra-comicos do actor-toureiro preto Antonio Teixeira e de outros valiosos cooperadores, garantem um espectaculo original e unico, sendo de esperar, portanto, que a praça tenha uma enchente á cunha.
In A CAPITAL, Lisboa.

12 DE AGOSTO DE 1911 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NO CAMPO PEQUENO

TOURADAS

Praça do Campo Pequeno

Realisa-se amanhã, no Campo Pequeno, como temos dito, a mais excepcional corrida da temporada. Os ninos sevilhanos, tendo como espadas Limeno e Gallito, José Bento, José Casimiro, Rocha e Ribeiro Thomé, são os artistas que a empreza contractou, pertencendo os touros ao lavrador Emilio Infante.
É o seguinte o detalhe da corrida:
1ª parte - 1º touro, José Bento d'Araujo; 2º, Theodoro Gonçalves, Jorge Cadete e Ribeiro Thomé; 3º, espadas Limeno e Gallito; 4º, José Casimiro; 5º, espada Gallito. Intervallo. - 2ª parte - 6º touro, Morgado de Covas; 7º, Jorge Cadete e Thomaz da Rocha; 8º, espada Limeno; 9º, José Casimiro e José Bento d'Araujo; 10º, Bandarilheiros das quadrilhas dos espadas.

In A CAPITAL, Lisboa.

24 DE AGOSTO DE 1911 - A MULHER-HOMEM TOUREIA EM ALGÉS E AS VEDETAS EM CACILHAS

TOURADAS

PRAÇA D'ALGÉS

Os numerosos frequentadores da praça d'Algés vão têr ensejo, no proximo domingo, de vêr, mais uma vez, e agora com vistoso programma a valente toureira La Reverte, a mulher-homem, como lhe chamam actualmente por ter alcançado em Hespanha, auctorisação para andar vestida de homem, e assim poder continuar a sua carreira artistica, visto ali ser defezo as mulheres tourearem.
É pois, o caso de sensação da semana a vinda de La Reverte á praça d'Algés n'esse dia, e decerto não lhe faltará concorrencia, por que além d'este attractivo outros tem a corrida de seguro efeito.
Haverá parte séria confiada a applaudidos artistas, e parte comica, em que o popular Antonio Preto, promette conservar em permanente gargalhada todos os espectadores.
Quanto a La Reverte toureará dois touros a sós.
A tudo isto accresce serem os preços d'esta corrida excessivamente baratos.

PRAÇA DE CACILHAS

A empreza d'esta praça organisa para o proximo domingo uma corrida, que deve attrahir grande concorrencia graças aos attrativos que a recommendam. Pela primeira vez, trabalharão alli cavalleiros e bandarilheiros conhecidos e forcados do Campo Pequeno.
Será, pois, uma festa a que ninguem faltará, porque o publico gosta d'estes espectaculos e por pouco dinheiro passa uma agradavel tarde.

In A CAPITAL, Lisboa.

31 DE AGOSTO DE 1911 - JOSÉ BENTO EM MONTEMOR-O-NOVO

TOURADAS

PRAÇA DE MONTEMOR-O-NOVO

No proximo domingo realisa-se a segunda corrida da temporada, que a empreza organisou com elementos superiores.
Tourearão a cavallo o festejado artista José Bento d'Araujo e o amador Manuel Peres, e a pé o novilheiro Malagueno, Francisco Xavier, Luciano Moreira, José Costa, Alfredo dos Santos, João d'Oliveira, Innocencio Angelo, lidando-se touros do sr. Francisco da Silva Victorino.
N'esse dia tambem ali se realisa a festa annual e por isso haverá comboios a preços reduzidos entre Lisboa, Montemor e as estações intermediarias.

In A CAPITAL, Lisboa.

6 DE SETEMBRO DE 1911 - JOSÉ BENTO E JOÃO COUTINHO NO BRASIL

TOURADAS

O AMADOR JOÃO COUTINHO

Parte em breve para Manaus e outros pontos do Brazil este valente e distincto bandarilheiro amador.
É sabido que João Coutinho, tão estimado entre nós, conta no Brazil, sobretudo no Pará, onde esteve com José Bento d'Araújo, innumeras sympathias, devido ao successo que alcançou na época passada.
João Coutinho parte independente de qualquer empreza.
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In A CAPITAL, Lisboa

13.7.10

19 DE JULHO DE 1911 - A VÉSPERA DA CORRIDA...

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno
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É o seguinte o programma da corrida nocturna de amanhã, promovida pelo cavalleiro José Bento d'Araujo.
1º para Manoel Casimiro: 2º para Cadete e Thomaz da Rocha; 3º para o espada Gallito; 4º para José Bento d'Araujo; 5º para o espada Cocherito, (intervallo); 6º para José Casimiro; 7º para Manoel dos Santos e Ribeiro T.; 8º para o espada Gallito; 9º para o espada Cocherito; 10º para Thomaz da Rocha e Jorge Cadete.
In A CAPITAL, Lisboa.

17 DE JULHO DE 1911 - A CORRIDA ANUNCIADA

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

É na proxima quinta-feira que se realisa, no Campo Pequeno, a annunciada corrida nocturna em beneficio de José Bento d'Araujo.

No programma, além d'este applaudido cavalleiro e do seu collega José Casimiro, figuram os nossos melhores bandarilheiros e os espadas Gallito e Cocherito de Bilbao.

Os cavalleiros Casimiros escrevem-nos, agradecendo aos amigos, ao publico, e em geral á imprensa o auxilio que lhes prestaram para a sua corrida do dia 9.

PRAÇA D'ALGÉS

No dia 19 realisar-se-ha em Algés, uma tourada como ha muito tempo se não effectua n'aquella praça. Além de um escolhido grupo de bandarilheiros, abrilhantarão a lida os notaveis cavalleiros José Bento d'Araujo e Morgado de Covas que se apresentarão trajando rigorosamente á alentejana.

In A CAPITAL, Lisboa.




13 DE JULHO DE 1911 - A FESTA ANUNCIADA É NA PRÓXIMA QUINTA...

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

A tourada nocturna de hoje a oito dias, em beneficio de José Bento, offerece-se promissora de grandes attractivos.
Assim, já se sabe que, além do beneficiado, trabalhará o seu collega José Casimiro, figurando dois espadas no elenco, um dos quaes é Gallito.

Marcam-se bilhetes, desde já, na sède da Companhia de Carruagens Alliança, ao bairro Camões.
In A CAPITAL, Lisboa.

1 DE JULHO DE 1911 - A FESTA CONTINUA...

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

Principia às 4 3/4 da tarde a corrida d'amanhã, em que é espada Rafael Gomes Gallito e são cavalleiros José Bento e Morgado Covas, figurando, no grupo de bandarilheiros, os nossos principaes artistas e os da cuadrilla do Gallito.
O detalhe da corrida é o seguinte:

1ª parte - 1º touro, José Bento d'Araujo; 2º touro, Jorge Cadete e Manuel dos Santos; 3º touro, Thomaz da Rocha e Alfredo dos Santos; 4º touro, Morgado Covas; 5º touro, bandarilheiros do espada Gallito; 6º touro, José Bento d'Araujo; 7º touro, Jorge Cadete e Thomaz da Rocha; 8º touro, bandarilheiros do espada Gallito; 9º touro, Morgado Covas; 10º touro, Manoel dos Santos e Alfredo dos Santos.
In A CAPITAL, Lisboa.

13 DE JUNHO DE 1911 - A FESTA ADIADA

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

O benefício do cavalleiro José Bento, que estava marcado para domingo, ficou transferido para outra data que serà oportunamente annunciada, visto o estado de saúde do referido cavalleiro não lhe permitir que tomasse parte agora na lide.

In A CAPITAL, Lisboa.

12 DE JUNHO DE 1911 - A FESTA DE JOSÉ BENTO D'ARAÚJO

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

Causou agradavel impressão no público aficionado o programma que o festejado cavalleiro José Bento d'Araujo apresenta no proximo domingo aos seus numerosos amigos.

A vinda a Lisboa dos applaudidos matadoures de touros Conchita de Bilbao e Revertito é signal evidente de que os amadores assistirão a um magnífico trabalho não só em bandarilhas, como com a muleta e capote, pois tanto o bilbaíno como o sevilhano são dois artistas do género.

Umas das phases da corrida que decerto despertará também grande enthusiasmo será a da competência entre Cadete e Thomaz da Rocha, dois excellentes bandarilheiros que contam numerosos amigos, havendo já apostas sobre qual ficará vencedor.

Com tantos attractivos e ainda outros que brevemente serão annunciados, cremos que a corrida do próximo domingo no Campo Pequeno será não só interessante como imensamente concorrida.

In A CAPITAL, Lisboa.

8 DE JUNHO DE 1911 - A FESTA DE JOSÉ BENTO D'ARAÚJO

TOURADAS
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Praça do Campo Pequeno

Realisa em 18 do corrente, na praça do Campo Pequeno, a sua festa artística o cavalleiro José Bento d'Araujo, que tantas sympathias conta entre os aficionados.

José Bento está organisando para essa tarde um programma sensacional que despertará o maior enthusiasmo pelos elementos artísticos que comportará, não só portugueses como hespanhoes.

Desde já se marcam bilhetes para esta sensacional corrida na sède da companhia de carruagens Alliança, no bairro Camões.

In A CAPITAL, Lisboa.

3.7.10

16 DE JUNHO DE 1912 - CORRIDA DAS ESCOLAS LIBERAIS

TOURADAS
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Campo Pequeno


Já hoje podemos dar os nomes dos artistas que tomam parte na corrida das Escolas Liberaes.

Cavalleiros são Fernando Ricardo Pereira, Eduardo Macedo, José Casimiro e Morgado de Covas e bandarilheiros Theodoro Cadete, Torres Branco, Arthur Felix, Manuel dos Santos, Thomaz da Rocha, Augusto Salgado, Alexandre Vieira, João d'Oliveira, Alfredo dos Santos e Custodio Domingos.

Os touros destinados á lide de cavallo, serão recolhidos pelos artistas José Bento d'Araujo e Manuel Casimiro. A commissão ainda espera a resposta de dois espadas.

Um dos numeros que vae despertar grande enthusiasmo é a apresentação na arena de 800 alumnos da Casa Pia, que executarão exercicios militares e de gymnastica sueca.
Os poucos bilhetes que restam encontram-se na sède das Escolas Liberaes, Armazens Grandella ou no escriptorio da commissão Arco de Bandeira, 92, 2.º, E.
In A CAPITAL - Lisboa.

18.4.10

TOUREIRAS EM LISBOA

O POÇO DA CIDADE


José Bento de Araújo, natural da freguesia da Ajuda e mestre de equitação que se exibiu nas praças alfacinhas da Junqueira, do Campo de Sant'Ana e do Campo Pequeno, havia sido o monitor de uma célebre Madame Clotilde Mayestrick. Alemã de nascimento, esta artista veio a Portugal com os seus de alta escola e trabalhou em 1889 no Real Coliseu (o edifício da Rua da Palma onde se realizaram os primeiros espectáculos de cinema na capital e onde hoje se situa a Garagem Lis).
A Mayestrick apaixonou-se pelo toureio que entendeu como forma máxima de equitação, recorrendo a José Bento para a ajudar. Praticou em várias praças até chegar à consagração do Campo Pequeno em Setembro de 1902.
O mesmo cavaleiro alfacinha deve ter ganho gosto pela experiência e quis ensaiá-la também com uma francesa de nome Marie Gentis. Esta tinha a particularidade de montar à amazona e chegou a fazer a sua perninha em plena cidade de Paris, numa praça improvisada na Rue Pergolèse. Em Lisboa, embora sem desagradar, não passou de Algés.
O princípio do século XX deve ter sido, aliás, propício ao aparecimento de mulheres toureiras em Lisboa. Em Setembro de 1902, por exemplo, entrou pela arena do Campo Pequeno nada menos do que uma quadrilha de senhoritas toureiras. Eram oito e exibiam-se a pé e a cavalo. Segundo os apontamentos preciosos de Pepe Luís, a apresentação destas "gracias" na arena lisboeta saldou-se, porém, por uma pequena desgraça, sem um minímo entendimento entre elas - e entre elas e os cornúpetos.
No mesmo ano de 1902, estreou também na grande praça de Lisboa a espanhola Maria Salomé, conhecida por "La Reverte". Ao contrário de outras, fazia certa gala em se mostrar varonil e em enfrentar touros já de certo porte. Como curiosidade, anote-se que, quando as mulheres foram proibidas de tourear em Espanha, Maria Salomé não hesitou em declarar-se como homem e passar a chamar-se Agústin. Mas as mudanças de sexo não eram então tão comuns como hoje e foi como Maria Salomé que "La Reverte" morreu.


In O Poço da Cidade - de APPIO SOTTOMAYOR - A Capital - 25/9/1991 - Lisboa
Nota de Rui Araújo: O apelido correcto de Clotilde é Maestricht - e não Mayestrick.

9.3.09

24 DE MAIO DE 1906 - FESTA DO CAVALEIRO FRANCISCO BENTO D'ARAÚJO - FILHO DE JOSÉ BENTO


Foto cedida por Anabela Bragança, descendente de José Bento de Araújo.

7.3.09

15 DE AGOSTO DE 1896 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NO RIO DE JANEIRO

PRAÇA DE TOUROS DO RIO DE JANEIRO

Rua do Boulevard em frente á estação dos bonds de Villa Isabel

Companhia tauromachica composta de insignes toureiros portuguezes e hespanhois sob a direcção dos eminentes e primeiros cavalleiros tauromachicos nos principais circos de França, Hespanha e Portugal, Alfredo Tinoco da Silva e José Bento de Araujo.

HOJE, SABBADO 15 E AMANHÃ, DOMINGO 16
ÁS 3 HORAS DA TARDE

Duas extraordinarias corridas em que serão lidados 6 touros nacionaes apoiados escrupulosamente por pessoa de inteira confiança da empreza nos conhecidos campos de Laranjal.

6 TOUROS PORTUGUEZES das raças mais apuradas e pertencentes aos conceituados e bem conhecidos lavradores, os Exmos. Srs. Comendador Paulino da Cunha e Silva, José Palha Blanco, Luiz Patricio e Estevão de Oliveira Junior.

Apresentação na mesma tarde dos dois eminentes vultos da tauromachia portugueza, Alfredo Tinoco da Silva e José Bento de Araujo, que executarão as cortezias de XXX nos seus suberbos cavallos PEPENILLO e GENTIL (magestosamente ajaezados) e lidarão 5 touros nestas excepcionaes corridas.

3ª apresentação do notavel espada Alberto Hojas - Colon - do bandarilheiro hespanhol Manuel Urabo e dos applaudidos toureiros portuguezes Carlos Gonçalves, Luiz Homem e Carlos Silva. O valente grupo de moços de forcado capitaneados pelo applaudido e valente pegador Cara Linda, fará as pegas que o director da corrida determinar.

Campinos, carecas, papagaios, andarilhos e tudo quanto é costume nestes espectaculos, formarão o brilhante cortejo nas venias antes e no final da corrida. Amenisarão estas deslumbrantes corridas, tocando alternadamente as pecas do seu reportorio a banda marcial do 22º de infantaria e a do conhecido professor XXX.

Detalhe do dia 15 - 1º touro (portuguez), farpeado pelo cavalleiro Alfredo Tinoco; 2º touro bandarilhado por Carlos Gonçalves e Luiz Homem; 3º touro (portuguez), farpeado pelo cavalleiro José Bento; 4º touro, bandarilhado por Carlos Silva e Carlos Gonçalves; 5º touro, bandarilhado pelo espada e seu bandarilheiro; 6º touro (portuguez), farpeado pelos dois cavalleiros.

Estes detalhes poderão ser alterados se assim o julgar conveniente o Exm. Sr. director das corridas.

Os bilhetes para estas extraordinarias corridas acham-se desde já a venda, por especial favor, no theatro Sant'Anna e na rua do Mercado n. 74.

Preços - Camarotes com 5 entradas 40$; sombra XX$; sol XX$.

Não ha entradas de favor. As portas de entrada abrem-se á 1 hora da tarde.

Atenção - As pessoas possuidoras de bilhetes (completos) da 2ª corrida têm direito a igual entrada para a 3ª corrida (exclusivamente). Os Srs. espectadores só poderão requisitar senha de sahida (para a rua) depois de corridos os tres primeiros touros (intervalo).

Por motivos imprevistos a empreza não pôde conseguir para estas corridas touros de Montevidèo da raça cruzada com Mura e Yeranguas, o que espera conseguir para as corridas seguintes.

Corridas todos os domingos e dias santificados. Havera bonds especiaes no fim das corridas.

in SOL E SOMBRA, 15/08/1896, Rio de Janeiro, Brasil

1.3.09

HISTÓRIA DAS TOURADAS E DA PRAÇA DE SANT'ANA

"A tourada era a fascinação e até daquele modo se afirmava na simpatia popular. Aplaudiam-se os grandes artistas de toureio a cavalo: o Fernando de Oliveira, o Manuel Casimiro, o José Bento de Araújo e os celebrados bandarilheiros irmãos Robertos; os Peixinhos, que já se tinham exibido no redondel do Campo de Santana, onde toureara o conde de Vimioso e os bandos fidalgos."

(Martins, R. - 1947 - in Lisboa, História das suas glórias e catástrofes - Volume II. Lisboa: Inquérito, pp. 940 e 943) .
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"Campo de Santana - No mesmo local, onde já em 1767 existira uma pequena praça que não fez história, inaugura-se, em 3.7.1831, a praça do Campo de Santana, sendo lidados nada menos do que dezasseis touros oferecidos pelo rei...
No mês de Dezembro de 1887 realizou-se a última corrida, em que participaram os cavaleiros Casimiro Monteiro, Alfredo Tinoco, José Bento de Araújo e D. Luís do Rego, que enfrentaram touros dos irmãos Robertos."

(Guerra, M. A. (1994). Praças de touros. In F. Santana & E. Sucena (Coords.), Dicionário da história de Lisboa (pp. 728-729). Sacavém: Carlos Quintas & Associados.

Informação cedida por Alexandre Ramos, descendente de José Bento de Araújo.

26.2.09

6 DE SETEMBRO DE 1903 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NO BRASIL

A CANOAGEM

PELOS ESTADOS

PARÁ - Realisou-se a 6 de Setembro findo no rodondel de Baptista Campos a festa do conhecido cavalleiro tauromachico José Bento de Araujo.
A festa foi esplendida, nada faltou, os sete bravos touros portaram-se correctamente ; para maior brilhantismo da reunião José Cabeça fez boas pégas, que bastante agradaram.

Tomaram tambem parte nesta festa do Colyseu Paraense os cavalleiros Albano Custodio e Joaquim Victor Marques. Rufino de Oliveiro, conhecido bandarilheiro paraense, tambem tomou parte nesta corrida.

in A CANOAGEM - 17/10/1903 - Brasil


22.2.09

19.. - O CAVALEIRO FRANCISCO BENTO D'ARAÚJO - FILHO DE JOSÉ BENTO


Foto cedida por Anabela Bragança, descendente de José Bento de Araújo.

1908 - BRASIL - O CAVALEIRO FRANCISCO BENTO D'ARAÚJO - FILHO DE JOSÉ BENTO


Foto cedida por Anabela Bragança, descendente de José Bento de Araújo.

1908 - BRASIL - O CAVALEIRO FRANCISCO BENTO D'ARAÚJO - FILHO DE JOSÉ BENTO

Recordação Rio de Janeiro 8-8-1908
Ao Distinto Cavalleiro Francisco Bento d'Araujo
Cavallo
"Imperador"

Foto cedida por Anabela Bragança, descendente de José Bento de Araújo.

21.2.09

AGRADECIMENTO

Depois de o popular PARTEBILHAS (http://partebilhas.blogs.sapo.pt/) ter mencionado a existência de CAVALEIRO TAUROMÁQUICO, é a vez de o blogue A FESTA MAIS CULTA (http://afestamaisculta.blogspot.com/) dar conta deste espaço num post datado de 5 de Fevereiro de 2009.

"FESTA MAIS CULTA"

'Cavaleiro Tauromáquico' é o título de um blog centrado na figura de José Bento d'Araújo e na tauromaquia dos séculos XIX e XX.

José Bento d'Araújo (1852-1924) foi um dos mais populares cavaleiros da transição entre aqueles dois séculos. Era o tempo dos touros corridos, vício que não incomodava José Bento. "Fazia-lhe tanta diferença ter de toirear um toiro puro como um com oito ou nove praças", assinala Pepe Luís ("Lisboa das Toiradas"). Presença habitual nas praças portuguesas, actuou também na França (Paris, Nîmes, Avignon, Marselha), Espanha (Madrid, San Sebastián) e Brasil. José bento d'Araújo foi também empresário taurino. Além da preciosa informação já disponibilizada, o autor do blog, Rui Araújo (descendente de José Bento?), promete divulgar brevemente "documentos inéditos de arquivos estrangeiros".

in A FESTA MAIS CULTA - 5 de Fevereiro de 2009

CAVALEIRO TAUROMÁQUICO agradece a Manuel Peralta Godinho e Cunha (PARTEBILHAS) e a Alberto Franco (A FESTA MAIS CULTA) as amáveis palavras que mereceu a ambos.

E aproveita a oportunidade para responder à pergunta formulada por Alberto Franco: "Rui Araújo (descendente de José Bento?)..."

Sim.


19.2.09

1889-1892 - A GRANDE PRAÇA DE TOUROS DO BOIS DE BOULOGNE (PARIS)

A primeira tourada da "Gran Plaza de Toros" do Bois de Boulogne ocorre no sábado 10 de Agosto de 1889.

No domingo 28 de Agosto de 1890, os forcados africanos substituem os das Landes.

Na quinta-feira 9 de Outubro é realizada a primeira corrida nocturna.

No sábado 11 e no domingo 12 de Outubro, depois da tourada, é apresentado às 20:30 nas arenas, um concerto. A orquestra, composta por 160 músicos, toca obras de Berlioz, Gounot, Saint-Saens, Auber, Salvayre, etc.

A época de 1891 começa no domingo 24 de Maio e termina no domingo 8 de Novembro.

No domingo 5 de Julho é apresentada uma personagem inédita. Eis o relato do jornal diário parisiense Le Figaro (na secção "Correio dos Teatros"): "Para além das atracções habituais, que proporcionavam a presença de Valentin Martin, Le Mateito, os toureiros das Landes e os 'picadors', muito aplaudidos, é necessário mencionar o 'great event' da jornada com o aparecimento de Mademoiselle Gentis, a escudeira de alta escola, que acaba de realizar uma autêntica proeza. Foi a primeira a actuar, e combateu o touro com uma tal ousadia, que foi longamente aplaudida e coberta de flores. O habilidoso cavaleiro Bento de Araújo partilhou o triunfo da charmosa escudeira."

A época de 1892 só começa no domingo 26 de Junho.

Todos as quintas-feiras e domingos, 10.000 a 15.000 pessoas deslocam-se às arenas de Paris para aplaudir Angél Pastor, Le Pouly, Le Mateito, Francisco Granja, Juan Ripoll, Marius Monnier e os cavaleiros "en place" Bento de Araújo e Mademoiselle Maria Gentis.

Na terça-feira 4 de Outubro de 1892 o jornal Le Figaro escreve: "Apesar do mau tempo, havia muita gente nas arenas da Rua Pergolèse. A 28ª corrida de touros foi marcada pela alternativa de P. Frascuelo. Foi das mais movimentadas e das mais brilhantes. Os touros eram vigorosos e derrubaram por mais de uma vez os picadores. José Bento de Araújo e a charmosa 'caballera' Maria Gentis permanecem excepcionais. Esta última deve lutar não só contra o touro, mas também contra o seu cavalo, que continua a ser rebelde. Ela plantou duas javelinas magistrais. Frascuelo, cuja chegada era impacientemente aguardada pelos aficcionados parisienses, não os desiludiu. Demonstrou um talento e uma coragem extraordinários. A quadrilha provençal de Marius Monnier, de Marselha, apresentava a sua despedida ao público parisiense. Deixou-lhe a melhor impressão e foi alvo de uma verdadeira ovação. Na próxima quinta-feira é a 29ª corrida com Frascuelo. Início dos forcados africanos, cujo trabalho algo fantasista agradou imenso, no ano passado, aos frequentadores da 'Plaza'."

As actividades da 'Gran Plaza' de Touros deixam de ser publicitadas a partir de terça-feira, 18 de Outubro de 1892.

Não é realizada em Paris uma única tourada na época de 1893.

No dia 12 de Janeiro de 1893, a Sociedade Anónima da Gran Plaza de Touros do Bois de Boulogne, com o capital de 5.000.000 francos, declara falência. As peças expostas no Museu Tauromáquico são vendidas em leilões. Em Setembro, as arenas e dependências são vendidas por um preço ridículo e são demolidas.

Em 1899, a tentativa de organizar touradas revela-se um fracasso.

Em 1925 são efectuadas algumas corridas nas arenas de Paris.

Em Setembro de 1942 são realizadas mais algumas no (tristemente célebre) Vel'd'Hiv, na capital francesa.

Fonte: Hubert Demory

4.11.08

LISBOA 2008 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

NOTÁVEL PAINEL DE AZULEJOS NO PRÉDIO QUE PERTENCEU AO CAVALEIRO

Foto cedida por Rogério de Oliveira Pampulha, descendente de José Bento de Araújo.

LISBOA 2008 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

AS INICIAIS - DETALHE
Foto cedida por Rogério de Oliveira Pampulha, descendente de José Bento de Araújo.

LISBOA 2008 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

DETALHE
Foto cedida por Rogério de Oliveira Pampulha, descendente de José Bento de Araújo.



LISBOA 2008 - JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

Foto cedida por Rogério de Oliveira Pampulha, descendente de José Bento de Araújo.

10.9.08

6 DE MARÇO DE 1894 - PORTO - FESTEJOS HENRIQUINOS

A baixo publicamos o programma e descripção das corridas de touros realisadas no Real Colyseu Portuense e na Praça da Serra do Pilar, na presente epocha de 1894, por ocasião dos festejos Henriquinos na cidade do Porto.
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AS TOURADAS

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Trez foram as que se realisaram ante-hontem e hontem, no Porto. Ou tudo ou nada. Na de domingo, no Colyseu, o gado, de Emilio Infante, resultou bravissimo, dando uma lide magnifica.
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José Bento coberto de applausos. Bombita, que se estreava, agradou: mostrou coragem e frescura. Os seus bandarilheiros bem. Quanto aos nossos, João Calabaça teve um quiebro de mestre e Theodoro e Cadete bandarilharam um boi superiormente. Pegas magnificas. O creador foi chamado á praça. Enchente completa.
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Na de hontem, no mesmo Colyseu, menos gente na sombra e no sol, mas os camarotes cheios tambem. O gado cumpriu, como o da vespera, á excepção do ultimo boi, que sahiu malesso.
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Os mesmos applausos a todos os artistas. Emilio Infante muito saudado.
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in O PRIMEIRO DE JANEIRO - 6 DE MARÇO DE 1894

29 DE MARÇO DE 1896 - O EXPRESSO - INAUGURAÇÃO DA ÉPOCA

TAUROMACHIA
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CAMPO PEQUENO
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Annuncia-se para domingo de Paschoa a inauguração da epoca.
Pelos pormenores que temos, a nova empreza esforça-se para apresentar uma corrida, que satisfaça os mais exigentes aficionados.
(...)
São cavalleiros os applaudidos Alfredo Tinoco e José Bento, que fazem as suas despedidas, pois partem brevemente para o Rio de Janeiro onde lhes offerecem um magnifico contracto.
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in O EXPRESSO - Lisboa, Segundo Anno - Nº 63 - Domingo, 29 de Março de 1896

6.9.08

15 DE MAIO DE 1910 - CAUDETE : "LA PLAZA MÁS BONITA DE ESPAÑA"

Praça de Toiros de Caudete (Albacete)
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"La Plaza más bonita de España" era o título de um dos jornais espanhóis, dando notícia da construção em Caudete de uma praça de toiros, linda, magnífica e ao estilo bizantino.
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A praça foi inaugurada em 1910 e foi mandada construir por Francisco Albalat, conde de S. Carlos, que era um grande aficionado da festa taurina e possuidor de enorme fortuna.
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A praça de toiros construída em Caudete, uma pequena povoação com cerca de 7.000 habitantes nessa época, situada entre as províncias de Alicante, Valencia e Murcia, tinha lotação para 9.000 pessoas, Teve um percalço complicado antes da abertura, porque foi construída sem arquitecto e por um mestre-de-obras seguindo as indicações do conde, tendo o "Ayuntamiento" negado a respectiva autorização para a abertura ao público, o que só foi conseguido depois de ter sido paga uma elevada multa.
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Em 15 de Maio de 1910, teve lugar a inauguração, com cerca de 5.000 espectadores e o seguinte cartaz: 1 toiro de Damian Flores para o cavaleiro português José Bento d'Araújo e 6 toiros de Saltillo para os matadores Ricardo Torres "Bombita" e Rafael González "Machaquito". Acontece que uns dias antes da inauguração, Ricardo Torres foi colhido e foi substituído pelo matador Enrique Vargas "Minuto".
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Na imprensa no dia seguinte: O cavaleiro português obteve um "señalado triunfo"; Minuto "cumplió" e Machaquito "fué el héroe de la tarde, cortando 3 orejas". E comentou Francisco Moya em "Sol y Sombra": "No es posible describir la sensación que me causó la presencia de la plaza de toros de CAUDETE. Es tan hermosa que para si la quiseran muchas capitales de provincia."
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A praça de toiros foi quase completamente destruída com os bombardeamentos durante a Guerra Civil e mais tarde, em 1986, foi restaurada, tendo sido suprimido o terceiro piso e o gradeamento em ferro.
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Os restos da praça foram levados para Valencia. para construção do Mercado Colón.
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Texto retirado do blogue Partebilhas (http://sol.sapo.pt/blogs/partebilhas/default.aspx), reproduzido aqui com autorização do seu amável autor, Eng. Manuel Peralta Godinho e Cunha.

3.9.08

5 DE JUNHO DE 1903 - DOIS DIAS ANTES DO DIA DE "TROMBA LINDA"

TAUROMACHIA



Realisando-se no proximo domingo uma tourada em Setubal, os portadores de bilhetes de ida e volta, vendidos no referido dia, pelas estações do Barreiro e intermediarias para a de Setubal, podem regressar pelo comboio que, ás 7 horas da tarde, parte d'esta ultima estação.
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- O jury para a classificação dos touros na proxima corrida é formado pelos socios do Real Club Tauromachico Portuguez, srs. D. Antonio de Portugal, Victorino Froes, Jorge Rebello da Silva, D. Luiz Lobo da Silveira e D. Fernando Pombeiro.
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- Os premios que o Real Club Tauromachico offerece para o certamen de ganaderia que domingo se realisa no Campo Pequeno, contam de duas bonitas e valiosas salvas de prata.
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O certamen de ganaderias - Desperta verdadeiro interesse a corrida que no proximo domingo se realisará no Campo Pequeno.
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É a primeira vez que nas nossas praças se realisa um certamen de tanta importancia.
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Quatro dos nossos principaes creadores de touros apresentam os melhores exemplares das suas ganaderias, disputando quatro valiosos premios, dos quaes 2 são offerecidos pela empreza (200$00 cada premio) e os outros são offerecidos pelo Real Club Tauromachico, que expontaneamente manifestou desejos de contribuir para o aperfeiçoamento das castas bravas no nosso paiz. Sabemos que constituem estes premios dois valiosos objectos d'arte.
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No cartaz annunciador da corrida veem exaradas as varias condições a que está sujeito o certamen.
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Os touros de 4 annos cumpridos e todos puros serão lidados em todos os "tercios", isto é, toureados por cavalleiros, bandarilheiros e passados de muleta.


Toureiam a cavallo José Bento, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro e Joaquim Alves.
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A ultima parte da lide está confiada aos festejados "espadas" Faico e Montes, e o trabalho de bandarilhas a cargo de Theodoro Gonçalves, J. Cadete, Saldanha, Manuel dos Santos, Thomaz da Rocha, Paqueta, Calderon e Limeño, estes ultimos das "cuadrillas" dos dois "espadas".
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in O SÉCULO - 5 de Junho de 1903

2.9.08

30.8.08

7 DE JUNHO DE 1903 - O DIA DE "TROMBA LINDA"

TAUROMACHIA
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Campo Pequeno — Foi interessante e animada a corrida que hontem se realisou na praça do Campo Pequeno, não faltando ovações, algumas d’ellas, na verdade, bem pouco merecidas.
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O clou da tourada consistia principalmente no certamen de gado bravo, embora o cartaz reunisse outros elementos valiosos.
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Tratava-se de ver quem era o lavrador que apresentava o touro mais bravo, visto que já se sabia qual tinha sido o feliz que possuia o mais lindo bruto que tem nascido nas Lezirias.
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O publico esperou com impaciencia a entrada na arena do animal premiado.
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Era elle um animal negro retinto, chamado “Carapuço”, mas que fica alcunhado de “Tromba Linda”, para todos os dias da sua triste vida.
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Respeitamos muito a opinião do jury que concedeu o premio ao referido touro, por signal, manso como burro, que é das manadas do sr. Faustino da Gama; mas, francamente, o nosso voto seria para o segundo touro, de Emilio Infante, porque era um animal com uns pés muito bem feitos, bastante risonho e com uns olhos encantandores.
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E n’isto de gostos não ha discussões.
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Os dois touros bravos que appareceram foram o setimo, do marquez de Castello Melhor, e o oitavo, de Emilio Infante.
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O que pregou mais sustos, pondo em fuga soldados da guarda municipal, policias, creados de servir e toda a gente, que estava na trincheira, foi o sexto, de Correia Branco, que saltou umas poucas de vezes as taboas, sempre com vontade de fazer mal.
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Este é que, a nosso ver, merecia o premio.
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De resto, o certamen não foi grande cousa.
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O touro 5º, de Gama, cumpriu e era nobre, e o 3º, de Castello Melhor, tambem cumpriu no primeiro tercio, e nada mais.
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Os cavalleiros José Bento, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro e Alves prenderam poucos ferros, sendo todos chamados e muito applaudidos.
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Alves foi quem melhor figura fez na parte que diz respeito á equitação e a governo do corcel.
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O mestre Faico bailou uns passes de muleta, não indo, comtudo, a compasso da musica. O que foi pena.
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No ultimo executou um bom cambio.
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Montes esteve bem com a muleta, especialmente no 6º, em que a faina foi muito laboriosa e luzida.
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Os bandarilheiros estiveram diligentes, mas os touros muito apurados no primeiro tercio da lide, e na maioria mansos, chegavam sem faculdades ao segundo tercio.
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O José Russo pegou valentemente o 3º do curro.
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O bandarilheiro Limeño, que, segundo parece, está praticando para moço de forcado, fez tambem uma rija péga de cara, e tão atrapalhado ficou com os derrotes do brutinho, que perdeu o seu habitual sangue frio. Pobre homem!
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Estranhámos que a musica não fizesse ouvir os seus melodiosos sons n’um lance de tanto effeito, quando é tão prodiga em nos matar o bicho do ouvido depois dos mais terriveis bornaes.
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A praça estava cheia.
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Assistiu a parte da corrida a rainha senhora D. Amelia.

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Zé Jaleco

in O SECULO – 8 de Junho de 1903

3 DE SETEMBRO DE 1924 - "OS QUE MORREM"

OS QUE MORREM

José Bento de Araujo


Pelas 16 horas, realizou-se o funeral do conhecido cavaleiro tauromaquico José Bento de Araujo.


O prestito funebre saiu da igreja do Coração de Jesus para o cemiterio dos Prazeres. No acompanhamento viam-se muitos artistas e afficionados da arte de Montes.
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Sobre o ataude foram dispostas grande numero de coroas e ramos de flores naturaes.
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Fizeram-se representar no funeral as Associações dos Toureiros, Proprietarios de Trens de Aluguer, Empresa do Campo Pequeno, etc.
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No cemiterio foram organizados varios turnos.

in A CAPITAL - 3 de Setembro de 1924

TOURADAS NO RIO DE JANEIRO

Na virada do século XIX para o XX, esses eventos atraíam centenas de espectadores.

Fabrício Alexandrino

As touradas tiveram origem nos países da Península Ibérica. Mas se espalharam pelos territórios colonizados, onde passaram a ser praticadas nas mais diversas modalidades. No Brasil, o espetáculo se difundiu especialmente no fim do século XIX, quando existiam várias "praças de touros". A chegada de José Bento de Araújo e Alfredo Tinoco, famosos cavaleiros tauromáquicos, atraiu grande público para as touradas e deu novo impulso a essa festa que começava a cair no gosto da população brasileira, principalmente da carioca.
Foi na capital da República que as touradas fizeram mais sucesso. Na Divisão de Periódicos da Biblioteca Nacional, há diversas publicações que atestam o status que a atividade ganhou com a vinda dos toureiros portugueses. O sucesso fez com que elas passassem a ser notícia em vários jornais da época, culminando, em 1896, com o lançamento do periódico Sol e Sombra, que refletiu o entusiasmo dos cariocas. Apresentando-se como um "órgão da arte tauromáquica" e uma "folha para ricos e pobres - se ricos e pobres quiserem dar por ela 200 réis", o jornal mencionava o crescente interesse dos cariocas pelo "vibrante divertimento hispano-lusitano" e celebrava o êxito da empreitada:... se só agora o Rio de Janeiro consente em assistir a touradas e se já vai a elas com a mesma alegria e a mesma impaciência do público português e espanhol nas tardes destas funções inteiramente suas, - é porque o Rio de Janeiro só agora pode assistir a verdadeiros torneios e perceber a graça bizarra e todo o encanto deste divertimento popular, porque só ele tem o condão estranho de confundir, no mesmo momento, o entusiasmo do homem rude do povo com o do mais correto homem do mundo.
O semanal crítico-literário A Bruxa também tratou do assunto em suas páginas. Com texto de Olavo Bilac e ilustrações de Julião Machado, a publicação fez eco ao entusiasmo do público ao divulgar a "importante corrida de touros" ocorrida no sábado, dia 8 de agosto de 1896. A partir de então, A Bruxa passaria a publicar os croquis das touradas. O periódico Dom Quixote, de Ângelo Agostini, também noticiou os eventos, com direito a ilustração do próprio pintor.
Assunto de muita discussão, as touradas fazem sucesso até hoje nos países ibéricos. Aqui no Brasil, a prática perdeu força ao longo dos anos, mas se manteve viva em países como Peru, México, Guatemala e Equador. Uma das formas mais tradicionais dessa prática consiste em atrair o touro com o agitar de uma flanela vermelha (muleta) para golpeá-lo com uma bandarilha - haste de madeira com um arpão na ponta - quando ele se aproxima. O touro é atraído e golpeado sucessivamente até o golpe final, que o leva à morte. Os aspectos violentos e sádicos do ritual angariaram opositores de várias organizações protetoras de animais e estimularam o surgimento de organizações internacionais contra a prática de touradas, que fazem campanhas anuais de conscientização em várias cidades do mundo.

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in Revista de História da Biblioteca Nacional (01/11/2006), Brasil.
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PS- Contributo de Rogério de Oliveira Pampulha , descendente de José Bento de Araújo.

28.8.08

(BREVE HISTÓRIA) DA TAUROMAQUIA EM PORTUGAL

"Ao longo dos séculos que em Portugal a Tauromaquia ocupou um lugar de relevo na nossa expressão cultural, chegando os reis D. Miguel ou D. Carlos a dar o exemplo no amor à Festa dos Toiros.
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Em todo o país se foram construindo praças de toiros, especialmente em Lisboa e desde meados do séc. XVI, tendo sido a primeira mandada edificar pelo rei D. Sebastião em Xabregas.
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Em 1741 e 1760, respectivamente nos reinados de D. João V e D. José I, tiveram lugar no Campo Pequeno algumas touradas, conforme consta em documentos dessas épocas. Ficaram célebres dois tauródromos situados no Campo de Sant'Ana.
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O primeiro autorizado pelo decreto régio de 29 de Julho de 1830, que foi inaugurado a 3 de Julho de 1831 pelo rei D. Miguel e na presença da Infanta D. Maria da Assunção. Mais tarde foi edificado outro recinto no mesmo local, tendo aí havido corridas de toiros durante cinquenta e seis anos.
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Ficaram célebres a corrida realizada por ocasião do casamento do rei D. Luís e a que teve lugar quando D. Afonso XII de Espanha visitou Lisboa.
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O último espectáculo taurino sucedeu a 6 de Dezembro de 1887, com actuações dos cavaleiros Casimiro Monteiro, Alfredo Tinoco, José Bento de Araújo e D. Luís do Rêgo, tendo a praça sido demolida em Janeiro de 1889 por já não reunir as condições de segurança necessárias."
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in A Praça de Toiros do Campo Pequeno, p. 20 - A. Manuel Morais
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PS- Texto retirado da Agenda Cultural da CML - Agosto de 1993
.....Contributo de Alexandre Ramos, descendente de José Bento de Araújo.

27.8.08

6 DE JUNHO DE 1903 - UM DIA ANTES DO DIA DE "TROMBA LINDA"

TAUROMACHIA
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Certamen de ganadorias – Está despertando o maior interesse e enthusiasmo a corrida que amanhã se realisa na Praça do Campo Pequeno, não só porque reune elementos artisticos de primeira ordem, como tambem por haver grande curiosidade de saber qual dos creadores ganhará o premio, por apresentar o touro mais bravo e mais fino.
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Os espadas da tarde são Faico e Montes, e os cavalleiros José Bento, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro e Joaquim Alves. Os touros são lidados em todos os tercios.
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Hoje, ás 2 horas da tarde, reune na praça do Campo Pequeno o jury que classificará o touro de melhor estampa e que possua mais predicados de touro de lide.
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O curro entrou hontem na praça e é composto de animaes lindissimos.
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Basta dizer que os afamados creadores Emilio Infante, Faustino da Gama, marquez de Castello Melhor e Correia Branco mandaram para a corrida certamen o melhor que tinham nas suas manadas.
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in O SÉCULO - 6 de Junho de 1903

26.8.08

PRAÇA DO CAMPO PEQUENO - CORRIDA EXTRAORDINÁRIA - 6 DE ABRIL DE 1903



PRAÇA DO CAMPO PEQUENO - CORRIDA EXTRAORDINÁRIA - 6 DE ABRIL DE 1903

A tourada á antiga portugueza
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Á hora a que entramos na praça, 1 da tarde, já uma parte do sol está ocupado por espectadores e, caso extraordinario, na sombra, logares numerados, já se vêm
(sic) senhoras..
Alguns camarotes encontram-se egualmente ocupados.

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Na praça trabalha-se activamente; ultimam-se as decorações, especialmente a da tribuna real, que faz já prever um admirável effeito, pelo seu lindo aspecto decorativo.
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A pista apresenta, como novidade em praças portuguezas, uma orla de arabescos a vermelho, branco e azul.
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No touril, as grades foram cobertas por uma draperie de purpura, franjada a amarello.
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Os camarotes de sombra estão guarnecidos de preciosas colchas de damasco de côres diversas, presas com cavilhas de metal amarello, alternando com cobrejões alemtejanos listrados de côres gritantes e cada um com pittorescos bouquets de flores.
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Nos camarotes de sol, a decoração é toda a colchas de setim.
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A guarnição do gradeamento dos fauteuils é de velludo grénat, com franjas da mesma côr.

Á volta de toda a praça pendem festões de verdura e rosas.

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A tribuna real parece ser o foco de todo o effeito decorativo e, na verdade, é de um aspecto soberbo. Externamente, guarnecem-n’a magnificos panos de velludo purpura, onde destaca, n’uma elegante simplicidade, uma meia lua de rosas de vivo colorido, e ramos frescos de lilazes, arbustos floridos saem aos lados, sobre o fundo azul e branco dos cortinados de seda.
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Interiormente de bom gosto tambem o modo como foi adornada a tribuna. As paredes são forradas de panejamentos de tom azul claro com applicações em relevo de escudetes portuguezes e flores de liz douradas. O pavimento esta alcatifado em ramagens vermelhas e o docel com pannos de setim de cores nacionaes.
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A escada que da accesso á tribuna real esta egualmente ornamentada com gosto, brilhando magnificos vasos com arbustos em todos os degraus e aos cantos dos patamares, palmeiras e fetos, e poltronas de seda amarella.
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Na sala que antecede, a mobilia é antiga, estofada a damasco. Sobre uma das mesas, 4 binoculos de corrida.
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Eis como outro jornal descreve a corrida.
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O 1º touro foi manso; o 2º nobre e cumpriu; o 3º e o 4º mansos; o 5º cumpriu; o 6º saiu o mais bravo de todos; o 7º, 8º e 9º foram maus; e o 10º era bravo.
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José Bento e Fernando de Oliveira apanharam o touro mais bravo, e, pondo de parte o receio que no começo da lide ambos mostraram, com especialidade José Bento, que até cedeu uma sorte, foi o trabalho dos dois cavalleiros o mais luzido da tarde.
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Fernando salientou-se n’uma saída falsa magnifica e n’um ferro curto primoroso, havendo outro tambem excelente de José Bento.
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Obtiveram ambos uma ovação estrondosa.
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José Bento brindou pela imprensa.
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Fernando d’Oliveira foi brindado com um alfinete d’ouro para gravata pelo sr. José Ignacio de Vallada. O alfinete foi entregue ao illustre artista espetado n’um charuto.
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Manuel Casimiro e Joaquim Alves, não obstante terem diligenciado tourear, defrontaram-se com dois mansos, e não puderam brilhar, embora collocassem alguns ferros de valor.
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Notamos contudo a maneira distinta e artistica por que Joaquim Alves preparou uma saída ao 8º touro do curro, estacando o seu cavallo com firmeza quando se viu com o terreno vencido pelo adversario.
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Deveras apreciámos tambem os progressos de Eduardo Macedo, que rematou sortes com muito luzimento, entrando bem, calculando os terrenos como devia, e mostrando coragem.
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Simões Serra consentiu admiravelmente os seus touros em duas recargas, collocando tambem algumas farpas com exito.
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Observaremos, porém, que um e outro tiveram a sorte de lhes tocar o 5º e 10º touros, que se prestaram ao castigo.
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A gente de pé esteve trabalhadora, e com o capote distinguiram-se Teodoro e Manuel dos Santos, estando diligente Torres Branco.
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O 2º touro foi bem bandarilhado por Teodoro e Cadete. O 4º coube a Torres Branco e Manuel dos Santos, que o aproveitaram bem, apesar de ser manso.

Torres, á gaiola, deixou o melhor par da tarde, empregando bandarilhas de surpreza, das quaes saíram as bandeiras ingleza e portugueza.
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Manuel dos Santos tambem pôz um bom par, apparecendo egualmente as bandeiras das duas nações.
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Manuel dos Santos offerecera a serie aos mocarcas, dizendo o seguinte:
— Tenho a honra de brindar a SS. MM. e faço votos pelas prosperidades das duas nações alliadas.
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O mesmo toureiro que, durante a tarde, mostrou mais uma vez a sua coragem e vontade de agradar, fez cambios de joelhos, recortes,mareou os touros, adornando-se com intrepidez e, finalmente, passou de muleta o 4º - tirando alguns passes aceitaveis. dadas as pessimas condições do animal.
O trabalho dos dois artistas foi muito applaudido.
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Silvestre Calabaça collocou dois pares bons no 9º e tentou um quiebro na cadeira que resultou imperfeito, porque o touro arrancou incerto.
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A melhor pega da tarde foi a de Carraça, no 9º touro. O 1º enxovalhou uns poucos de forcados, e, por fim, nem á volta o conseguiram pegar.
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O 2º touro foi pegado por Alcorrial e ainda melhor: ajudado pelos companheiros, e o 4º por João Couto, que egualmente fez figura. Houve uma pega de volta regular por “Pé de Chumbo” e Carraça.
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O 7º foi pegado ao sopé por José Peixinho, que brindou por Eduardo VII, de joelho em terra.
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Todos os toureiros offereceram sortes aos monarcas.
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O rei de Inglaterra ficou muito bem impressionado com a corrida, demorando-se na praça mais tempo do que tencionava.
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Gostou immenso das pegas e apreciou muito a intrepidez dos toureiros.
Eduardo VII sorria-se sempre que os forcados levavam boleos.
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No sol houve bengalada rija entre dois espectadores. Os monarcas assestaram para lá os seus binoculos e parece terem apreciado muito esse numero extra-programa, em que recebeu um ferimento na cabeça... uma senhora, e foi preso um dos audazes corsarios lusos – perdão, um dos audazes contentores.O desfile, na Avenida, á volta dos touros, dizem que foi um espectaculo de verdadeira maravilha.
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in O PRIMEIRO DE JANEIRO - 8 de Abril de 1903

JOSÉ BENTO DE ARAÚJO




14.8.08

3 DE SETEMBRO DE 1924 - A HISTÓRIA DE UMA VIDA


José Bento de Araujo

Faleceu ontem este conhecido cavaleiro tauromaquico


Está de luto a tauromaquia nacional. Faleceu ontem de tarde o apreciado cavaleiro José Bento de Araujo. Ainda ha dois meses o vimos no Campo Pequeno, já muito velhinho, já trémulo e acabado, atravessar a arena, a muito custo, entre as ovações freneticas do publico. Era a festa de José Casimiro. E José Bento, setenta e tantos anos de pertinazes canceiras, toda uma vida de esforço que triunfa, e de triunfo que passa, não podia faltar nessa tarde de sol e de alegria a levar a saudação da velhice que declina á selva vitoriosa dos que trabalham hoje em arenas de Portugal! A multidão vitoriou-o, de pé, naquela algazarra entusiastica e forte que é o proprio grito da alma lusitana, dando curso á vibração das suas manifestações atávicas, em frémitos de emoção, em rajadas de mal contido ardor. José Bento chorou. A neve dos seus cabelos, aquecida pelo fogo abrazador e vivificante dos aplausos, não podendo permanecer insensivel, enterneceu-se, palpitou e desfez-se em lagrimas. Lagrimas que o publico guardou e que nós agora recordamos, ao traçar, em breves linhas, a biografia do tão estimado artista !
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José Bento de Araujo iniciou a arte tauromaquica numa vacada, em 1874, na praça da Junqueira. Pouco depois toureou em Sacavem e mais tarde em Lisboa, na antiga praça do Campo de Sant'Ana, onde trabalhou por muitos anos. Em 1892 foi a França, entrando em diversas corridas em Paris, Nimes, Avignon, Marselha e outras cidades.
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Também toureou, variadas vezes, em diversas terras de Espanha. Foi na Praça do Campo Pequeno que continuou os seus trabalhos tauromaquicos, sempre muito aplaudido e muito querido dos colegas e dos 'aficionados', até á data em que abandonou definitivamente a arena.
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José Bento tambem foi ao Brasil em companhia do falecido cavaleiro Alfredo Tinoco. Tomou parte em varias touradas no Rio de Janeiro, onde causou grande entusiasmo.
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Foi em 10 de Agosto que José Bento assistiu á ultima diversão tauromaquica. Tratava-se duma festa promovida pelo Sport Algés e Dafundo, tendo sido o decano dos cavaleiros tauromaquicos alvo de uma calorosa manifestação de simpatia.
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Em 22 de Junho, quando da festa dos cavaleiros Veigas, foi o simpatico velho quem dirigiu essa corrida.
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Em 13 de Julho atravessou, como acima dissemos, entre calorosos aplausos, a arena do Campo Pequeno, para fazer a entrega da farpa a José Casimiro.
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Haverá seis ou sete anos que na mesma praça de touros se realizou uma festa em beneficio dos invalidos da capital. Um dos numeros dessa diversão consistia na apresentação de três 'Tancredos'. Eram José Bento, Manuel Casimiro e José Casimiro. Os três, vestidos de branco, desde os pés á cabeça, conservaram-se imoveis nos seus lugares e o pontudo arremessou ao chão o simpatico José Bento, que, embora já velho e cansado, se levantou lépido, ileso, no meio de calorosos aplausos da assistencia.
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José Bento, ou Zé Bento, como mais era conhecido no meio tauromaquico, explorou, como empresario, as principais praças de touros do país. Ha muitos anos, na antiga praça da Alegria, do Porto, o querido cavaleiro assistia a uma corrida. Dias antes havia sido colhido quando toureava. O publico, em altos brados, reclamou José Bento que respondeu não poder trabalhar, porque tinha a perna e o pé esquerdo em tal estado, que se via forçado a calçar um chinelo. Os aficionados não lhe aceitaram a desculpa e ele, com uma espora na bota e a outra no chinelo, lá montou o cavalo e saiu-se do precalço por forma a merecer calorosos aplausos.
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Em algumas praças do país apresentou, com grande exito, o celebre touro 'Capirote' ao tratador que, em plena praça, lhe dava comida á mão. A ultima vez que o cornupeto foi apresentado foi na Moita, por ocasião das festas da Boa Viagem, que se realizam no corrente mês. O bicho, quando estava a 'brincar' com ele, teve morte quasi instantanea. José Bento sofreu nessa ocasião um dos maiores desgostos da sua vida.
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O saudoso José Bento foi companheiro dos cavaleiros Alfredo Tinoco, Fernando de Oliveira, D. Luis do Rêgo, Francisco Simões Serra, Manuel Casimiro, Morgado Covas, Joaquim Alves, Adelino Raposo, D. Antonio S. Martinho, Fernando de Oeiras, Alberto Cunha, Eduardo Macedo e tantos outros.
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José Bento de Araujo, que morava na rua da Sociedade Farmaceutica, 11 r/c., deixa viuva a srª D. Carolina dos Santos Fonseca Araujo e era sogro do sr. Julio José Vitorino. O seu funeral realiza-se hoje, pelas 4 horas da tarde, saindo o prestito da igreja do Coração de Jesus, onde o seu cadaver se acha depositado.
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in DIÁRIO DE NOTÍCIAS -3 DE SETEMBRO DE 1924


12.8.08

1953 - HISTÓRIA DA TAUROMAQUIA

Rogério Perez, Pepe Luís, Fernando Baptista, Leopoldo Nunes, Nizza da Silva e Jayme Duarte de Almeida publicaram a (excelente) História da Tauromaquia em 1953.

Eis algumas linhas sobre o princípio do século XX (e a mudança de regime):
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"Neste princípio de século outro facto ficaria a assinalar o toureio equestre da nossa terra: a morte de Fernando de Oliveira, ocorrida na praça do Campo Pequeno na tarde de 12 de Maio de 1904.
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É natural, é certo mesmo, que tenham sido vários os desastres mortais verificados no toureio que vitimaram cavaleiros. Durante alguns séculos de prática, vários nomes devem ter ficado no caminho com as vidas decepadas pelas hastes dos toiros. A notícia desses desastres perdeu-se, contudo, na distância a que foram ficando, mas tudo leva a crer que raras figuras de relevo tenham tombado nas arenas, porque assim como se conhecem os desastres que vitimaram em Espanha o Marquês de Pozoblanco, retirado da praça já sem vida, e D. Diego de Toledo, filho do Conde de Alba, falecido em consequência de uma colhida, também se conheceriam os que a Portugal dissessem respeito. Desta forma e encarando com as devidas reservas a versão que chegou até à actualidade, parece pertencer ao Conde dos Arcos, filho do Marquês de Marialva, o primeiro desastre de vulto histórico ocorrido no toureio nacional.
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Mais tarde, por volta de 1866, a praça da Nazaré era testemunha de outro desastre impressionante, pouco conhecido e lembrado pela modesta categoria do lidador que, só através do sacríficio da própria vida conseguiu passar à posteridade. Foi o cavaleiro Maradas que um toiro de Francisco Bate-folha trespassou, pondo termo a uma carreira humilde como as que mais o foram. Fernando de Oliveira, pelo contrário, era um nome de relevo na tauromaquia nacional e porque é, a bem dizer, uma figura contemporânea, esse facto dá uma presença ainda impressionante ao desastre ocorrido nessa tarde de Maio, na arena lisboeta. Por isso, o relevo que tomou a tragédia perante a história tauromáquica de Portugal e, sobretudo, nos anais da praça do Campo Pequeno.
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Corriam-se toiros do Marquês de Castelo Melhor e de Vitorino Fróis, cinco de cada ganaderia. Com Fernando de Oliveira toureavam a cavalo José Bento de Araújo, Simões Serra e Joaquim Alves. Ambiente de alegria, enriquecido com a presença da Família Real.
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O primeiro toiro, de Vitorino, foi lidado por José Bento de Araújo, saindo para o segundo Fernando de Oliveira, montando o seu cavalo Azeitona, que o toureiro havia comprado a Pinto Barreiros. Quando entrou na praça o toiro do Marquês de Castelo Melhor, número trinta, Ferrador de nome, causou espanto a sua corpulência. Mas não era verdadeiramente bravo. Dava até sintomas de já conhecer a lide, talvez em resultado da retenta a que fora submetido com o fim de o destinarem para semental. Fernando de Oliveira conseguiu prender-lhe o primeiro ferro à custa de lhe pisar os terrenos. Castigado, o toiro tornara-se mais perigoso ainda, e quando o cavaleiro tentou nova sorte, desta vez à meia volta, arrancou com furioso ímpeto, e, apanhando a montada pelas pernas, ergueu-lhe a garupa, foçando o cavaleiro a ser lançado ao solo. A queda fora desastrosa e o cavalo cairia também, embrulhando-se toureiro e montada ante a decidida investida do toiro. Surgem os toureiros ao quite, o cavalo corre desordenadamente pela arena, mas Fernando conserva-se no solo, inanimado. Surge a impressão da tragédia irremediável, o que poucos momentos depois se confirmaria.
(Fernando d'Oliveira em 1903 - documento de Rui Araújo.)
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Não é fácil, nas circunstâncias em que o desastre se deu, pormenorizar a acção até se apurar o golpe que terá vitimado o toureiro. Como geralmente acontece em casos desta natureza, as opiniões foram diversas. Diziam uns que o toiro não chegou a alcançar o toureiro que, caindo desamparadamente no solo, teria sofrido a fractura da base do crânio; afirmavam outros que essa fractura fora provocada pela pancada de um estribo; garantiam outros ainda que o cavalo, ao levantar-se, teria atingido o cavaleiro com um coice, e, por último, houve quem asseverasse que após a colhida, pretendendo levantar-se, Fernando de Oliveira esteve um momento de joelhos, o suficiente, porém, para que o toiro investisse, tornando irrmediável o desastre. Escassos dias depois, mas quando a surpresa dos primeiros instantes já havia passado, permitindo a análise serena dos acontecimentos, uma publicação lisboeta referia por esta forma a trágica ocorrência:
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'Estrugia a praça de aplausos, levantava-se o público ante o donaire do cavaleiro que, na sua montada côr de azeitona, direito, elegante na casaca encarnada bordada a prata, recebeu a farpa que lhe entregava o bandarilheiro espanhol Currinche. Fernando de Oliveira veio fazer os cumprimentos a S.S.M.M. e correu a aguardar o toiro à gaiola.
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O bicho era castanho, de um tom torrado, com bragas no ventre e grande .
O cavaleiro perdeu a sorte de gaiola, mas veio com valentia à meia volta, saiu em falho e fez outra sorte, cravando um magnífico ferro à tira, o que causou delirante entusiasmo.
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De novo a praça estrugiu em aplausos; ele, na sua veste vermelha, aquecido pela ovação, quiz apertar o bicho que se encolhia em frente do sector seis, sombra-sol, para onde o cavaleiro se dirigiu, a citá-lo de novo em voz rija. Rematou então a sorte em meia volta e cravou o ferro. Mas neste momento o toiro investiu de novo, para os vultos, Fernando de Oliveira ficou a descoberto e o animal continuou a marrar furiosamente contra ele, enquanto dois espanhois, com as capas, buscavam distrair a fera.
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O artista foi, finalmente, levantado: tinha o crânio fracturado, dizendo-se ter sido o cavalo ao erguer-se que o calcara com uma das ferraduras.'
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Fosse como fosse, nessa tarde de 12 de Maio de 1904, a tauromaquia portuguesa vestia crepes pela morte desse valente toureiro, que soube cativar a simpatia de todas as classes sociais e a admiração dos exigentes, pelo seu correcto toureio e pelas invulgares qualidades de equitador.
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A felizmente rara frequência destes desastres envolve a figura de Fernando de Oliveira numa auréola de prestígio, com a qual perdurará na memória daqueles mesmo que não o conheceram. Fica como um símbolo.
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É fácil de compreender quanta influência terá exercido nos sectores tauromáquicos a mudança de regime verificada em Portugal em 1910. As circunstâncias em que surgia a República, saída de um movimento revolucionário, estabelecia um ambiente em que toda a hostilidade parecia de menos contra os antigos hábitos e as velhas tradições. Verificava-se como que a necessidade de estabelecer uma sociedade nova, assente em novos hábitos, e o toureio, como expressão fidalga e tradicional, seria atingido da forma mais incisiva. Os toureiros da nobreza, que mantinham a pureza dos sistemas e das intenções, viram-se coagidos a afastarem-se das arenas, onde, sem contrôle, os profissionais deram largas a uma liberdade e transigência que afastaria o toureio a cavalo da sua verdadeira expressão artística e técnica. Por sua vez, as empresas, sem ter a quem verdadeiramente respeitar e sedentas de lucros, tornariam mais frequente ainda a utilização dos toiros corridos - o que já se vinha observando anteriormente - e o toureio equestre teve de rever sistemas aplicáveis a tal espécie de toiros, que exigiam uma técnica muito especial. E a lide a cavalo decaiu mais ainda, não tanto no entusiasmo que despertava, como na sua secular expressão. Justamente pela transcendente compreensão a que obriga, o público aceitava-o assim mesmo e até constituía motivo de aplauso o saber-se que um lidador enfrentaria um toiro cujo passado já se conhecia, através das provas que dera.
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Estas afirmações não pretendem regatear méritos aos cavaleiros que então ficaram em actividade, porque é absolutamente crível que nomes como o dos Casimiros, José Bento de Araújo, Eduardo de Macedo e outros, tivessem sido tão grandes como os maiores se o ambiente em que exerceram o toureio os obrigasse ao respeito por regras tradicionais que se achavam quase olvidadas, apesar da lição trazida pelo portentoso Vitorino de Avelar Fróis e da mal esboçada continuação observada em Joaquim Alves, ao que parece discípulo do grande mestre. Mas é evidente que se originariamente o toureio equestre assentou em princípios que levaram a não considerar o toiro como uma fera, mas apenas como um vulgar adversário, ante o qual se deviam pôr em jogo valentia e lealdade (atributos que o próprio toiro ostenta quando puro), seria falseado na sua essência desde que houvesse de enveredar por aqueles caminhos a que obrigava a lide de reses corridas.
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Por outro lado, o estado de atraso em que se mantinha, de uma maneira geral, a criação do gado bravo destinado às lides, também não proporcionava grandes elementos para que se tivesse presente aquele princípio de lealdade, segundo o qual 'mais valia perigar esperando do que ferir fugindo'. E, assim, o que mais de frente se fazia por então era a tira, a maior parte das vezes marcando-se tão pronunciadamente a curva de entrada que a sorte perdia grande parte da sua natural beleza. Tanto assim era que, num juízo crítico do cronista António Rodovalho Duro (Zé Jaleco), referente a 1911, pode ler-se este apontamento curioso: 'O Toureio a cavalo é, geralmente, executado apenas para armar ao efeito; pica-se de todas as maneiras, sem defender os ginetes, que se sujeitam a tremendas colhidas, não obstante fazerem-se os remates das sortes livres de cacho, isto é, quando o cavalo tem passado a cabeça do toiro'.
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Contrariamente ao que hoje acontece, apesar do entusiasmo público rodear e favorecer o toureio montado, este atravessou, por essa altura, um período de decadência naqueles aspectos que o ligavam à tradição e intenção, que desde os mais remotos tempos orientavam a maneira de agir contra um toiro desde uma sela e que determinavam o combate frete a frente, sem disfarces ou qualquer possibilidade de lançar mão a recursos menos airosos, que aliás as próprias regras condenavam com tal veemência que o tentá-lo atingiria irremediavelmente a honra do cavaleiro.
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Mesmo em tais condições, alguns cavaleiros puderam marcar uma presença honrosa, entre os quais é justo destacar Manuel Casimiro de Almeida, que fora emulo de Fernando de Oliveira nessa luta de partidos que animou a tauromaquia nacional do princípio do século, José Bento de Araújo, que procurava em qualquer circunstância, o bom sentido do toureio, e, sobretudo, José Casimiro, que, embora distanciando-se um tanto dos moldes clássicos do toureio a cavalo, alcançou extraordinária fama, marcando uma época de brilhantismo e entusiasmo, assente na comunicativa alegria e juventude que haviam de caracterizá-lo até aos derradeiros dias da sua carreira, como se sobre si não passassem os anos.


- in Ilustração Portugueza, Ano I, nº 29 de 16 de Maio de 1904.